Análise e interpretação do poema “Segure o Tchan”

Cá estamos não é verdade. Bom, deixemos as enfadonhas e extensas introduções para trás e passemos ao que realmente interessa. Hoje iremos analisar e interpretar um poema que talvez muitos já tenham esquecido, mas que eu faço questão que seja recordado tal é a sua riqueza. O poema que analisaremos hoje tem o emblemático título “Segure o Tchan”.

O poema “Segure o Tchan” popularizou-se em Portugal através do famoso cantor Iran Costa, no entanto, ele não é o autor lírico deste tema. O poema ganha ainda mais interesse e até algum misticismo, ao nos darmos conta (após uma intensiva pesquisa de 5 minutos na Internet) de que não é possível atribuir um autor com certeza ao poema. É possível que seja da autoria de um grupo de trovadores populares brasileiros chamados, surpreendentemente, É o Tchan!. No entanto, não podemos assegurar que estes sejam realmente os autores do poema. Sabemos sim que há cerca de vinte anos atrás esta era uma música bastante popular, e não há nada como uma análise lírica para acalmar a nostalgia. Agora, irei partilhar em baixo a versão popularizada por Iran Costa em Portugal e que tantas alegrias trouxe ao povo, sobretudo em autocarros de escola primária.

Notemos agora o poema então:

 “Pau que nasce torto
Nunca se endireita
Menina que requebra
A mãe pega na cabeça

Domingo ela não vai
Vai, vai
Domingo ela não vai não
Vai, vai, vai

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan tchan tchan
Tchan tchan

Tudo que é perfeito
A gente pega pelo braço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

Depois de nove meses
Você vê o resultado
Depois de nove meses
Você vê o resultado

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan tchan tchan
Tchan tchan”

Se pensarem que nada pode ser dito, estão profundamente enganados e não estão a pensar do ponto de vista poético. Passemos à análise concreta.

Pau que nasce torto
Nunca se endireita
Menina que requebra
A mãe pega na cabeça 

O poeta começa com uma estrutura ABCD, um tipo de estrutura clássica na música popular mas ainda assim eficaz a passar a mensagem. Ele começa também recorrendo a um provérbio, uma maneira muito subtil do poeta  apelar ao senso comum do povo por palavras conhecidas pelas massas. Pau que nasce torto nunca se endireita – o dito ideal para introduzir às gentes o drama presenciado pelo poeta. A seguir ele diz que obviamente, uma mãe descontente com  uma filha que requebra tem de facto de pegar na cabeça da mesma, ou seja, manobrar o psicológico da filha. Para quem não sabe, requebrar é o mesmo que mover o corpo com meneios lânguidos, saracotear ou se quiserem, gingar. Hoje em dia mais conhecido como Twerk. Note-se como aqui está preservado o autêntico vocábulo da língua portuguesa, numa altura em que ainda se lutava contra o uso de estrangeirismos.

Domingo ela não vai
Vai, vai
Domingo ela não vai não
Vai, vai, vai

Aqui o poeta presencia a rebeldia do sujeito poético. Como castigo pelo facto da filha requebrar, supomos que frequentemente e à bruta, a mãe tal como referido nos versos anteriores, “pega pela cabeça”, ou seja, exerce uma punição psicológica sobre a filha proibindo-a de sair no Domingo. O poeta, atento às características rebeldes do sujeito poético filha (note-se que ela na sua rebeldia, requebra) realça também a rebeldia dela expondo que ela de facto vai vai.

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan tchan tchan
Tchan tchan

Este é de certeza a mais emblemática quadra do poema. É descrito todo um processo para lidar com o tchan. Primeiro deve-se segurar bem, como qualquer coisa com que temos de lidar, e de seguida amarrar. Note-se que há uma preocupação muito grande em prender o tchan. Pena é que nunca em todo o poema é revelada a identidade do tchan. Ficamos sem saber o que é um tchan ou até quem ele é, não pondo de parte que este possa ser de facto uma pessoa.

Tudo que é perfeito
A gente pega pelo braço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

Nesta estrofe, o poeta revela uma veia mais agressiva. Aqui descemos às trevas da sua mente e ao que de mais perverso lá se pode encontrar. Tudo o que é perfeito agente pega pelo braço revela claramente um favorecimento do abuso da força e do machismo. Aqui o poeta está a dizer que como tem uma atracção forte pelo que é perfeito, recorre de imediato ao uso da força para dominar. Dominar quem? Uma mulher. A seguir ele diz: Joga ela no meio mete em cima mete em baixo. É um verso que sugere a exploração sexual da mulher por meio da violência, jogando-a no meio de todos e, metendo em cima e em baixo, sendo que esta parte dispensa qualquer explicação.

Depois de nove meses
Você vê o resultado
Depois de nove meses
Você vê o resultado

A perversidade do poeta vai mais longe, mostrando que depois do bárbaro acto cometido (forçar uma mulher a manter relações sexuais tanto por cima, como por baixo), irá observar à distância o resultado, que será a gravidez desta pobre mulher cujo único erro foi desobedecer à ordem de sua mãe de ficar de castigo em casa por requebrar demasiado. Ele reitera esta ideia repetindo várias vezes os mesmos versos como que se vangloriando do sucedido. Uma das características mais interessantes deste poema é o paradoxo de emoções que o poeta provoca ao leitor. No início do poema ele usa a sabedoria popular para apelar à empatia, e no fim, provoca a repulsa ao mostrar as suas verdadeiras intenções.

Digamos que tudo isto é um bocado como os políticos.

Primeiro falam muito bem, mas no fim…metem em cima e metem em baixo. São umas bestas.

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